Freda Chale: uma luz na gastronomia da Tanzânia

Freda ChaleCrescer em uma pequena comunidade da Tanzânia não é fácil, principalmente para uma menina. Mas nada é impossível para quem é perseverante e acredita na mudança.

Entrevistamos Freda Chale, membro fundador do Slow Food da Tanzânia. Crescida na comunidade de Machame durante os anos 40 e 50, Freda ajudou o Slow Food a criar hortas na região de Pwani e em muitas outras áreas do país. Ela também colaborou para a introdução e a proteção de espécies vegetais autóctones pouco aproveitadas em escolas públicas e áreas urbanas da Tanzânia, e muitas delas embarcaram na Arca do Gosto. Diante da decadência da rica cultura gastronômica e da unidade social da sua comunida, Freda decidiu que iria estudar para poder ajudar a melhorar a alimentação da população. Hoje é uma nutricionista aposentada, e foi recentemente homenageada pelo seu importante trabalho com refugiados da Namíbia nos campos de refugiados da SWAPO na Zâmbia e em Angola, no início dos anos 80.

Como foi crescer na comunidade de Machame antes da independência?

Em geral, a comunidade era muito pouco desenvolvida antes da independência. Poucas pessoas eram formadas e só o que havia era um Ministro da Educação. Não havia água corrente ou meios de transporte da cidade para a comunidade. A população local não tinha carros, só alguns tinham bicicletas. Poucas casas tinham água corrente.

Era fácil ou comum que meninas estudassem naqueles dias?

Naquele tempo, muita gente não queira que suas filhas estudassem. Mas o meu pai sempre foi inflexível em relação à nossa formação, e todos nós estudamos. Ele ajudou muitas crianças a ir à escola, mesmo tendo muita gente contra, até mesmo seu irmão. Eu tive sorte. Me casei depois de terminar o ensino médio. Meu marido tinha um Bacharelado em Artes da Universidade de Makerere, e depois que tivemos cinco filhos ele me disse: “Você deve voltar a estudar; não sei o que pode acontecer comigo no futuro.” Então, depois que o meu último filho nasceu, em 1970, enquanto ele trabalhava no serviço diplomático no exterior, pude voltar a estudar. Quando terminei minha primeira graduação, liguei para o meu marido na embaixada da Tanzânia na Holanda para dizer que tinha terminado e iria voltar para casa. Ele argumentou que como eu tinha uma bolsa de estudos, deveria prosseguir e obter o mestrado. Então, decidi continuar meus estudos. Meu marido teve um papel fundamental na minha formação.

Você pode nos falar um pouco sobre a sua alimentação naquele tempo?

Costumávamos comer muita fruta, como tomate-de-árvore, pera e goiaba. Ao voltar da escola, as crianças entravam em qualquer quintal para comer frutas, eram de graça. Elas comiam o que encontravam, mesmo se fosse só uma banana madura. Hoje em dia isso não existe mais. Não havia fome, mas existiam doenças transmissíveis, como solitária, funza (infecção causada por falta de higiene) e percevejos. Apesar de meu pai nunca ter ido à escola, ele era um “ancião” da comunidade, era como se fosse uma espécie de professor, e nós comíamos diferentes tipos de alimentos nativos. Minha mãe cozinhava kitalolo usando folhas de kimanshigha (uma espécie vegetal autóctone da região do Kilimanjaro que não tem um nome em português) misturadas com muitos outros vegetais. Hoje, poucos desses vegetais autóctones ainda existem. Vários tipos de vegetais foram trazidos de fora, como repolho e espinafre, e acabaram se difundindo e destruindo as espécies locais.

Você trabalhou em vários países da África. Qual a principal lição que você aprendeu com esta experiência?

Tenha bons conhecimentos e envolva a população local. Se trabalhar sozinho, você nunca irá alcançar seus objetivos. Não ache que você sabe tudo. Eu não fiz todo o trabalho sozinha, o pessoal local sempre me ajudou. Seja humilde e entenda que os outros também têm conhecimentos. Mesmo se você tem competência, reconheça e dê valor ao trabalho dos outros, tente envolvê-los nos seus projetos.

Qual a importância de um movimento como o Slow Food?

O Slow Food é um grande movimento; teria sido muito bom se já existisse durante a minha carreira profissional. De toda forma, acredito que em primeiro lugar as pessoas devem ser educadas e sensibilizadas. Muita gente só quer ir para o Terra Madre na Itália. É o caminho certo, mas há uma preocupação em termos de apoio. Temos muitos projetos do Slow Food, e às vezes é difícil seguir em frente por falta de recursos. Várias vezes precisei usar meu próprio dinheiro. Também é preciso adotar um programa de alternância, para não levar sempre as mesmas pessoas para o Terra Madre.

Links para a cerimônia de homenagem a Freda Chale

 

 

 

Freda é coautora de um livro de receitas chamado Cooking with traditional leafy vegetables: Indigenous Plants in Tanzania’s Kitchen (Cozinhar com vegetais folhosos tradicionais: plantas nativas na cozinha da Tanzânia) em associação com a Fundação Slow Food para a Biodiversidade

 

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