Fortalezas indígenas do mundo inteiro ajudam a preservar o patrimônio alimentar dos povos indígenas. Uma viagem através das maiores conquistas das comunidades indígenas

Nos últimos 20 anos, as Fortalezas se tornaram um dos projetos que melhor representam a visão do Slow Food sobre produção de alimentos e biodiversidade. O projeto envolve 78 países e mais de 15.000 produtores de todas as regiões do mundo, todos com o objetivo comum de preservar as culturas, os sabores e a agrodiversidade locais.

Em 2017, o Slow Food formou uma parceria com o FIDA, lançando um projeto para empoderar jovens indígenas e suas comunidades; melhorar seu meio de subsistência, protegendo e promovendo seu patrimônio alimentar; e manter a sustentabilidade e resiliência de suas práticas.

O primeiro passo do projeto consistiu em apoiar as cinco Fortalezas Indígenas Slow Food já existentes, e criar mais cinco Fortalezas Indígenas Slow Food.

O projeto inclui os seguintes produtos e povos:

O Slow Food realizou um estudo de caso para monitorar os avanços dessas Fortalezas, em particular, a Fortaleza do Mel Silvestre Wichí, na Argentina, e a da Ovelha Vermelha Masai, no Quênia, duas Fortalezas Slow Food recém-criadas.

O povo Wichí na Argentina e a Fortaleza Slow Food de Mel Silvestre Wichí

 “O apoio à coleta de mel nos reafirma como povo Wichí, especialmente diante da padronização cultural que a globalização representa. Defender a coleta de mel significa também defender nossa cultura tradicional, sabendo como reconhecer nossas próprias vidas e a propriedade da floresta e também de nós mesmos, já que esta propriedade é o que nos dá a nossa identidade.”
Juan Ignacio Pearson, coordenador da Fortaleza do Mel Silvestre Wichí.

Os Wichí são o povo indígena mais numeroso da região do Gran Chaco, na Argentina, uma área na fronteira entre Argentina, Bolívia e Paraguai. Os Wichí têm sua própria língua, que é também uma das três línguas oficiais da Província do Chaco na Argentina.

O mel, “Tsawotaj” em Wichí, é tradicionalmente coletado de favos de mel silvestres encontrados nos ocos das árvores. O mel e a cera são coletados juntos e separados por prensagem. Em seguida, o mel é filtrado três vezes através de um pano para remover as impurezas, antes de ser embalado para a venda.

A comunidade Larguero, na Província de Salta, onde foi estabelecida a Fortaleza, inclui aproximadamente 50 pessoas da etnia Wichí. O objetivo da Fortaleza é reunir numa mesma rede produtores, chefs, gastrônomos, especialistas e instituições interessadas em preservar e promover o mel coletado pela comunidade Larguero, assim como os conhecimentos, a cultura e as tradições Wichí.

Graças ao projeto, a comunidade organizou sessões de treinamento, comprou equipamentos e construiu um novo espaço para a extração, garantindo mais higiene para atender as normas oficiais e poder vender o mel nos mercados internacionais. Em 2020, a Fortaleza começou a vender seu mel com o rótulo Slow Food.

De 2019 a 2020, a Fortaleza duplicou o preço do mel pago aos coletores e aumentou o preço de mercado em 30%. Em 2020, a quantidade vendida antes do final da época de coleta aumentou em 75%.

A coleta de mel é uma atividade feita tradicionalmente pelos homens Wichí, mas foram organizadas oficinas baseadas de gênero, onde um especialista falou sobre a coleta e o uso da farinha de alfarroba na alimentação tradicional. Para que as mulheres também se beneficiem com a Fortaleza, foram organizados intercâmbios entre as mulheres Larguero e as mulheres que lideram a Fortaleza Slow Food de Frutas Silvestres do Gran Chaco, ambas coletoras de frutas silvestres e produtoras de farinha de alfarroba.

Os Masai do Quênia e a Fortaleza Slow Food da Ovelha Vermelha Masai

 “A Fortaleza mudou minha vida, fiquei mais consciente das minhas raízes e da minha cultura, mais curioso sobre como os nossos antepassados sobreviveram em tempos difíceis. Aprender isso me ajudou a ter mais consciência sobre a conservação de plantas e animais, como a ovelha vermelha Masai, que estava quase extinta.”
Tunda Lepore, coordenadora da Fortaleza da Ovelha Vermelha Masai

Os Masai do leste da África vivem ao longo do Grande Vale do Rift, no sul do Quênia e no norte da Tanzânia. Tradicionalmente, eram um povo seminômade, sobrevivendo a períodos de seca buscando água, pasto e sal mineral onde quer que houvesse. Atualmente, devido à mudança climática e à proibição de entrar em parques e reservas nacionais, os Masai têm cada vez mais dificuldade para sobreviver.

Os Masai tradicionalmente dependem da criação de bovinos, cabras e ovelhas. A ovelha vermelha Masai é uma raça tradicional, que resiste a condições áridas e doenças. Entretanto, depois que os governos britânico e queniano introduziram a raça Dorper, mais produtiva, mas menos resistente, a raça vermelha Masai quase se extinguiu.

O Slow Food Quênia propôs a criação de uma Fortaleza da ovelha vermelha Masai devido à sua singularidade e, considerados os benefícios que seriam gerados, para ajudar os Masai na situação difícil em que se encontravam (principalmente devido às fortes secas e à impossibilidade de levar os animais para locais com pastagens e água melhores).

Em setembro de 2020, a Fortaleza contava com 41 membros: 20 deles jovens e 19 mulheres. A Fortaleza também abriu espaço para a participação feminina, pois as mulheres são consideradas especialistas em reconhecer os melhores animais.

Durante o primeiro ano, as atividades do projeto consistiram em treinamento intensivo sobre temas diversos: de liderança e marketing a criação animal e nutrição.

Sujeita aos ritmos da natureza, a Fortaleza vai demorar a ter retorno econômico, mas as previsões são promissoras. Desde setembro de 2020, os rebanhos cresceram e o número de animais aumentou graças ao nascimento de vários cordeiros.

Ampliando as possibilidades de comercialização e empoderando os jovens

A ampliação das possibilidades de comercialização para todas as Fortalezas foi o melhor resultado, contribuindo também para o aumento da renda de seus membros.

O projeto contribuiu significativamente para o empoderamento das comunidades indígenas onde foram criadas as Fortalezas, e ofereceu uma oportunidade inestimável para que muitos jovens possam desenvolver um meio de vida sustentável em suas regiões de origem.

Concluindo…

Com o fim do projeto se aproximando, e olhando para todas as Fortalezas apoiadas pelo próprio projeto, podemos tirar algumas conclusões importantes.

Todas as Fortalezas são administradas por povos indígenas e incluem produtos que têm uma forte relevância cultural para sua identidade, representam sua área local e são um elemento-chave para a segurança alimentar das comunidades envolvidas, diretamente e/ou pela geração de renda. A criação das Fortalezas melhorou o status econômico inicial dos membros, com melhores oportunidades de comercialização graças à melhor qualidade dos produtos e segurança alimentar, e a maiores volumes produzidos.

As Fortalezas ajudaram a empoderar jovens, que se tornaram atores-chave, e adultos, valorizando seus conhecimentos tradicionais e aprimorando-os com novas habilidades e know-how para enfrentar melhor a mudança de seu contexto.

As Fortalezas oferecem ajuda nas áreas-chave de conservação da biodiversidade e do meio-ambiente, e do desenvolvimento econômico. O número de membros das Fortalezas é estável e há um potencial de expansão em todos os grupos, graças aos benefícios visíveis gerados com a criação das próprias Fortalezas.

A versão curta deste estudo de caso está disponível Aqui. Para a versão completa, por favor clique Aqui.

Para artigos sobre os eventos e o projecto, visite a nossa página.

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