ECOSSISTEMAS: UMA HISTÓRIA DE AMOR – ENTREVISTA COM ANDREAS WEBER

Ecossistemas não são um conceito abstrato: eles são os espaços onde vivemos e que nos rodeiam, perto e longe.

Lagos, jardins, florestas, oásis, mas também as cidades onde vivemos: cada um destes espaços tem suas características específicas, que são definidas pelos organismos que ali vivem e a troca de matéria e energia entre eles. É esta troca que faz de um espaço um ecossistema, pois eles garantem a continuidade da vida.

UMA NECESSIDADE VITAL DE TODOS OS OUTROS

Se esta definição não esclarecer completamente do que estamos falando, talvez Andreas Weber possa ilustrá-la de forma mais vívida. Biólogo e filósofo, o alemão de 52 anos publicou uma série de livros sobre ecologia, incluindo Matéria e Desejo. Uma Ecologia Erótica, no qual ele descreve os ecossistemas como “processos amorosos”. Significa o quê, exatamente? “Um organismo, para existir, precisa de outros organismos”, explica ele. “Ele precisa deles de diferentes maneiras: como parceiros para a reprodução, como alimento e como abrigo, por exemplo”.

Em outras palavras, a vida dos ecossistemas é baseada nas relações entre os seus elementos constituintes. É esta característica de interdependência que torna frágil o equilíbrio destas relações e exige que “cada ser vivo, humano ou não, dê espaço aos outros – a quem precisamos para sobreviver – para que também eles possam florescer”. Além disso, a sobrevivência de um ecossistema baseia-se na consciência de que “só é possível sustentar-se a si próprio permitindo que os outros também se sustentem a si próprios”. São mecanismos que, segundo Weber, se assemelham aos que trabalham numa história de amor, cuja vitalidade se baseia na capacidade de intercâmbio entre parceiros, e alimentados pela capacidade dos parceiros de se afirmarem individualmente. 

SEM RECIPROCIDADE NÃO HÁ SOBREVIVÊNCIA

Embora a vida seja um processo de profunda reciprocidade, o filósofo lamenta que “hoje nos esforçamos para perceber”. A responsabilidade, naturalmente, é nossa: “Durante muito tempo, o reconhecimento da nossa reciprocidade com todos os outros seres foi parte integrante da cultura humana. Nos últimos tempos, porém, as sociedades ocidentais começaram a considerar os seres humanos como a única espécie de indivíduos, enquanto todas as outras são simplesmente coisas”.

A vida humana, em um ecossistema governado por dinâmicas invisíveis como as de uma história de amor, não pode funcionar sem insetos polinizadores. 

Esta abordagem não é apenas errada, é potencialmente letal, considerando as interconexões presentes nos ecossistemas: “Se pensamos que estas coisas podem ser usadas para garantir a existência da humanidade, a reciprocidade acaba aí.” E com ela, a própria vida: “Não podemos viver sem reciprocidade. Seria o fim da humanidade, espiritual, emocional e fisicamente.”

NÓS DEPENDEMOS DO MUNDO PEQUENO

Sem nos aventurarmos demais em cenários apocalípticos, temos o dever de considerar o papel das abelhas e outros insetos polinizadores nos ecossistemas em que vivemos, pois são fundamentais para a biodiversidade e a agricultura. Embora pequenas o suficiente para passarem despercebidas, elas desempenham um papel vital no sistema alimentar, polinizando os cultivos que se tornam o nosso alimento. No entanto, hoje a sua sobrevivência – e, portanto, a nossa – está ameaçada pelo uso maciço de agrotóxicos sintéticos e políticas agrícolas que se concentram exclusivamente no aumento da produção. Um processo que é prejudicial à nossa saúde e à biodiversidade, e que lança uma sombra sobre o nosso futuro: porque a vida humana, num ecossistema governado por dinâmicas invisíveis como as de uma história de amor, não pode funcionar sem polinizadores.

ECOSSISTEMAS NO TERRA MADRE SALONE DEL GUSTO

Os ecossistemas estão no coração do Terra Madre Salone del Gusto 2020. Não apenas como elemento do desenho do evento, mas sobretudo como protagonistas de um debate moral e político. Em uma nova geografia, a comida não tem fronteiras ou barreiras políticas, mas sim raízes. É o resultado de viagens, trocas, migrações, partilhas… os ecossistemas têm fragilidades semelhantes e, portanto, têm soluções potenciais comuns para os seus problemas comuns. Mas só conseguiremos encontrá-los e implementá-los se formos capazes de olhar a realidade através de um novo prisma, que vai além da idéia de nações, e de linhas traçadas num mapa pelas pessoas.

 

por Marco Gritti, m.gritti@slowfood.it

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