Waraná: história de uma resistência indígena

26 Fev 2019

Os Sateré-Mawé vivem nas terras delimitadas pelas cabeceiras dos rios Andirá e Marau, na Amazônia brasileira.

A Constituição Brasileira reconhece ao Sateré-Mawé o direito de morar essas terras, ricas de florestas e sociobiodiversidade. Aqui, há séculos, o povo Sateré-Mawé é guardiã do waraná que, no idioma local, significa “ponto de início de todo o conhecimento”, um cipó selvagem que pode atingir os 12 metros de altura, do qual se colhem mudas que, plantadas em áreas de cultivo, tornam-se produtivas. Das sementes obtêm-se inúmeros produtos, entre eles um bastão (o pão de waraná) e uma bebida sagrada conhecida como “Çapó”.

 

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©José Guedes

O Slow Food vem colaborando com o povo Sateré-Mawé desde o ano de 2004, e promoveu a articulação de uma Fortaleza com o Consórcio dos Sateré-Mawé que, por sua vez, faz parte do Conselho Geral da Tribo Sateré-Mawé (CGTSM), o maior órgão de representação política desse povo, que conta com cerca de 14.000 pessoas, distribuídas em 120 aldeias.

Depois de quase quinze anos desde o lançamento da Fortaleza, queremos avaliar os resultados com a comunidade. Segue a entrevista com o Sérgio Garcia, jovem Sateré-Mawé, atual Presidente do Consórcio dos Sateré-Mawé.

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Quais foram as principais mudanças desde que foi lançada a Fortaleza Slow Food?
O projeto da Fortaleza foi iniciado por volta do ano 2004, 2005. Naqueles anos, o waraná era muito pouco, quase extinto. O produto colhido era pouquíssimo, não era rentável, e os waranazais haviam sido abandonados e, consequentemente, também os conhecimentos ligados a seu processamento. O que mudou ao longo desses anos? Com a criação do Consórcio e graças ao apoio do Slow Food e outras organizações e parceiros, as comunidades locais começaram a identificar, no waraná, não apenas um alimento sagrado, mas uma possível fonte de renda para o povo Sateré-Mawé. Durante os primeiros anos do projeto, foram organizados muitos encontros e intercâmbios com os tuxauas – os líderes comunitários – e com os produtores, para valorizar o waraná. Sem o waraná o Sateré não vive, e sem Sateré o waraná não vive. Com a participação da rede do comércio justo internacional, o waraná adquiriu valor agregado, do ponto de vista econômico, político, cultural, ambiental e social.
Em seguida, a Fortaleza também começou a trabalhar com os meliponicultores de abelha canudo (uma abelha sem ferrão, nativa da Amazônia), fundamental para o ecossistema e a polinização do waraná. Sem as abelhas, a floresta desapareceria. Aos poucos, o mel começou, junto com o waraná, a constituir outra fonte de renda. Dessa maneira, o Consórcio dos Produtores Sateré-Mawé começou a comprar mel dos produtores que, com o passar do tempo, redigiram e adotaram um protocolo de produção.
Entre 2016 e 2018, as Fortalezas do Waraná e das Abelhas Canudo Sateré Mawé entraram na rede das Fortalezas apoiadas pelo projeto “Alimentos bons, limpos e justos na agricultura familiar”, podendo participar de inúmeros encontros de formação, atualização dos protocolos de produção, iniciando um processo de certificação participativa e presença em diversos eventos.
Em 2018, foi iniciado o projeto de cooperação com o FIDA que, entre seus objetivos principais, promove a diversificação dos canais de comercialização do waraná e a maior presença no mercado nacional. Ao mesmo tempo, o projeto irá contribuir para uma maior participação dos jovens nos processos produtivos e políticos, conscientizando-os sobre a importância da segurança e soberania alimentar, mostrando alternativas para produção agroecológica de produtos frescos locais.

Qual a importância do waraná para a comunidade indígena? Compartilhe algumas práticas culturais em que o mel está envolvido.
O waraná e o beneficiamento de suas sementes constituem a identidade do povo Sateré-Mawé, junto com o ecossistema onde vivem. É símbolo de força e poder: quando se juntam as lideranças, os tuxauas, eles consomem as sementes que, segundo a tradição, dão mais força às palavras positivas e à energia dos encontros. O Çapó é considerada uma bebida sagrada, e acredita-se que ao tomar, a pessoa também toma conhecimento, sabedoria. Por isso é preciso tomar quando se tem o coração puro, o pensamento voltado para coisas positivas. E quando a pessoa acredita, as coisas acontecem.

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©José Guedes

Qual a relação dos jovens com o waraná?
Os jovens que ficam na comunidade ajudam os pais durante a época de produção do waraná. Antes, eles ajudam a roçar os waranazais, na limpeza das plantas, depois, quando chega a hora, eles participam na colheita, descascando os frutos, fazendo a torra. Há várias outras atividades ligadas ao waraná que envolvem os jovens.
Na cultura Sateré-Mawé, todos os membros da família, durante a época de produção do waraná, participam das diversas atividades: da colheita ao beneficiamento. Hoje, contudo, com o aumento da frequência escolar dos jovens e com a maior troca com o mundo branco, embora a maioria dos jovens ainda viva nas aldeias, os jovens estão indo cada vez mais para a cidade para estudar, e deixam de participar diretamente da produção. De um certo ponto de vista, isso não é bom para nós. O waraná é uma das principais produções da sociedade Sateré-Mawé, é a nossa cultura, o nosso patrimônio cultural e imaterial, para nós extremamente importante. O nosso desafio, hoje, é fazer com que os jovens fiquem, oferecendo-lhes uma oportunidade econômica e social.

Poderia destacar os riscos ligados à perda das práticas de produção do bastão do waraná?
Acredita-se hoje que nem todos os Saterés-Mawés sejam excelentes padeiros, ou seja nem todos sabem fazer o bastão do waraná bem feito. Se não se faz bem, o bastão do waraná vai espocar quando for para o fumeiro, por não suportar a temperatura. Um verdadeiro mestre padeiro, conhece exatamente a quantidade de água que se deve acrescentar, sabe que se deve colocar no pilão junto com o waraná, que não podem faltar ou passar os ingredientes. Tudo é feito no “olhômetro”, a partir da experiência, pois não há medidas certas, não há nada escrito! E um verdadeiro mestre padeiro sabe disso. Então hoje, para a comunidade, o risco é que se percam esses conhecimentos. É preciso transmiti-los, esses projetos são muito importantes para nós, é importante que os Sateré-Mawé compreendam desde pequenos, os filhos do waraná. É importante que compreendam a importância de tudo aquilo que os nossos ancestrais nos transmitiram ao longo dos anos. É a nossa identidade e, sem as tradições, não somos nada. Tudo vira simplesmente história: “antigamente o meu povo fazia assim, mas hoje a gente não pratica mais as tradições…”. Então é o risco que corremos hoje. É importante preservar o nosso patrimônio cultural.

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©José Guedes

Por que é importante essa forma de resistência na comunidade, através do alimento, da soberania e segurança alimentar e nutricional?
É um aspecto muito importante. É a bandeira de luta do Slow Food, do Terra Madre, deveria ser a bandeira de todos os seres humanos. A questão da alimentação tem tudo a ver com a nossa cultura. Se você tiver uma alimentação saudável, não vai precisar ir ao médico, não vai precisar de uma lancha rápida para ir para a cidade se tratar. Você não vai precisar de um carro da SESAI[1], da CASAI[2] para ir ao hospital. Quanto menos gente ir para a CASAI, tanto maior será a nossa vitória, pois significa que estamos conseguindo fazer prevenção, pois é a alimentação que nos protege. É uma questão de segurança e soberania alimentar, de valores nutricionais. E isso é muito importante, pois a maioria dos Sateré-Mawé, com o poder de aquisição que têm, com dinheiro no bolso, estão começando a levar comida industrializada para as suas aldeias. Comem bolacha, café, tudo industrializado, sem valor nutricional! Graças ao projeto do waraná, vamos para as comunidades, explicando o que precisamos plantar, criar, sublinhando a importância de preservar nossos rios, nossas florestas. Conservar para utilizar de forma responsável, para que possamos utilizar a mesma área, o mesmo terreno por muitos anos. Essa é a importância do projeto: alcançar realmente a segurança alimentar e nutricional. Pois assim iremos nos alimentar de forma boa, limpa e justa. Para nós que comemos, para a natureza e para todo o mundo. Então essa é a nossa forma de resistir, essa é a nossa resistência: através da alimentação. Plantar, colher, ingerir alimentos saudáveis para nutrir o nosso povo. Essa é a verdadeira política que queremos implementar. Através da parceria com o FIDA, e graças às novas parcerias, queremos alavancar cada vez mais esses conhecimentos, levando-os para as comunidades, para as crianças que estão aí, que serão os adultos do amanhã, e que deverão aprender todos os saberes tradicionais. Precisamos usar tudo isso de uma forma responsável, para garantir o nosso futuro e da nossa terra, nossas tradições, nossa cultura, para nosso filhos e nossos netos.

[1] SESAI – Secretaria Especial de Saúde Indígena
[2] CASAI – Casas de Saúde Indígena

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