Ecologia integral – o clamor da terra e dos pobres

15 Out 2019

Intervenção de CARLO PETRINI – Segunda-feira, 14 de outubro de 2019 – 9ª Congregação Geral / Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica

Caro Papa Francisco, obrigado por ter me convidado para este encontro extraordinário. Partindo do ponto 47 do Instrumentum Laboris, eu gostaria de falar sobre o valor do alimento como elemento relacional.

Nos últimos vinte anos, no mundo inteiro, foi tomando força o conceito de soberania alimentar, segundo o qual, cada povo, cada comunidade, tem o direito de escolher o que cultivar, o que comer e como garantir o acesso ao alimento, respeitando as regras dos ecossistemas.

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Compartilhar alimentos facilita a construção de relações positivas, não apenas com nós mesmos, mas com os outros seres humanos e, sobretudo, com a nossa Terra Mãe. Por isso, desempenha um papel fundamental no caminho para a ecologia integral. O alimento, quando for bom, limpo e justo, tem um poder extraordinário, capaz de preservar a biodiversidade humana e natural, favorecer a interação e a miscigenação, garantir uma boa saúde. Esse conceito e as práticas resultantes realizam-se graças ao trabalho das pessoas mais humildes.

Quem são os principais protagonistas desse trabalho, não apenas na região amazônica, mas em todos os cantos do mundo? Em primeiro lugar, as mulheres. Na vida de cada um de nós, há uma mãe ou uma avó que, pela educação para o consumo correto dos alimentos, transmitiram-nos a inteligência afetiva que está na base da nossa existência: a inteligência do coração.

E o trabalho inigualável dos indígenas, muitas vezes relegados à figura secundária de coletores, um trabalho menos reconhecido do que o dos agricultores. É um erro enorme considerar a função da coleta inferior à da agricultura. Quando a coleta for inteligente e respeitar o meio ambiente, consegue proteger o patrimônio florestal, preservar a biodiversidade e garantir frutos para as gerações futuras. Uma parte relevante de biodiversidade agroalimentar na Amazônia continua desconhecida. Não se trata apenas de matérias-primas, mas também, e sobretudo, dos conhecimentos das populações indígenas. A eles se deve reconhecer o mérito de terem defendido esse patrimônio, ou seja, “a dádiva dos pais”.

E, cuidado: é preciso fazer com que não se instaure um mecanismo parecido com o que aconteceu com a indústria médica, onde plantas e princípios ativos enriqueceram as multinacionais do setor farmacêutico, sem nada devolver às populações. Que isso não aconteça com os alimentos! Porque uma humanidade que cresce e precisa de alimentos não pode permitir que este bem comum seja desfrutado por poucos e não posto livremente à disposição de muitos. A ameaça do agronegócio, da centralização de poder, das monoculturas e das criações intensivas, ligada ao desmatamento, à crise climática e ao aumento das desigualdades entre ricos e pobres, deve ser enfrentada com determinação.

Estamos vivendo tempos de grandes transformações. A comunidade mundial parece insensível diante do desastre anunciado. A visão elevada e inovadora da Laudato Si’, ainda não foi plenamente entendida pelo mundo leigo e, em grande parte, tampouco pelo mundo católico. Estamos nos aproximando, despreocupados, do abismo. Se, quando estivermos na beira desse precipício, o homo sapiens ainda o for, deverá parar e voltar atrás. Nesse momento, aqueles que tínhamos colocado entre os últimos serão os primeiros. Os idosos, os indígenas, as mulheres, os pobres, os jovens nos indicarão o caminho, terão compaixão por todos nós. Eu os encorajo, caros irmãos e companheiros de caminho, a viver esse momento – quando chegar – com grande alegria. Afinal, a compaixão que nos tornará mais livres e felizes não será aquela que iremos justamente oferecer, mas aquela que receberemos, com o bom exemplo, dos últimos. Faço meu o provérbio de Santo Agostinho “Verba movent, exempla trahunt” (As palavras movem, mas os exemplos arrastam). Hoje precisamos de grande exemplos, e este sínodo é um claro testemunho.

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