Como Resistir à Mudança Climática Através da Defesa de um Tubérculo.

22 Nov 2018

Dianda, Raphael, e a comunidade da Fortaleza do Inhame de Arbollé: como resistir à mudança climática através da defesa de um tubérculo.

Ao longo da estrada que une a capital do país, Ouagadougou a Ouahigouya, província de Passoré, encontram-se inúmeras mulheres burkinabes, sorrindo, com suas roupas coloridas. Seguram em suas mãos grandes recipientes cheios de inhame de Arbollé, um tubérculo local de forma característica alongada, e vão para a feira local, para vender seus produtos.

Entre elas, Dianda Pabebyam, presidente da associação Nabanswendé de mulheres vendedoras de inhame de Arbollé[1], é testemunha direta dos problemas que a sua comunidade teve que enfrentar ao longo dos últimos anos. “Devido à redução das precipitações nesta região, e ao progressivo desmatamento, os nossos solos ficaram empobrecidos, e muitos jovens foram obrigados a abandonar a aldeia”, declara.

Rapahael Ouedraogo, um jovem produtor, explica nos detalhes que “a variedade de inhame de Arbollé tem tamanho menor em relação ao inhame que se encontra no mercado, e a tentativa dos anos 90 de cultivar variedades mais produtivas, utilizando produtos químicos, foi um fracasso: não somente os produtos se revelaram prejudiciais para a saúde humana, para os animais e para a terra, mas também as variedades não se adaptaram ao solo argiloso-arenoso ou à mudança climática”.

Foi justamente por essas razões, que a Association pour le Développement du Département de Arbollé – ADDA – fez o possível para valorizar o inhame local e os territórios onde é cultivado, organizando uma associação que reúne produtores e vendedoras, e desenvolvendo algumas iniciativas de promoção – como o festival anual do inhame de Arbollé, que acontece todo ano no mês de fevereiro. Quando a Associação entrou em contato com a rede Slow Food em Burkina Faso, junto aos produtores e a um pesquisador da universidade de Ouagadougou, o desenvolvimento de um modelo sustentável para resgatar esse importante tubérculo local tornou-se realidade.
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Hoje, os produtores de inhame de Arbollé passaram de 15 a quase 100 na província, 35 dos quais sendo parte da Fortaleza Slow Food.

Raphael explica: “graças ao apoio do Slow Food[2] e graças a atividades de formação, encontros e participação de inúmeros eventos com a rede, a minha comunidade conseguiu não abandonar aquela produção que era tradicional da região, e que corria o risco de se perder, relançando o uso de adubo orgânico e a busca de técnicas de cultivo inovadoras, que nos ajudou a ter, hoje, um inhame de qualidade.”

Dianda conta que as mulheres também estão muito envolvidas nesse novo início, sobretudo na preservação do meio ambiente e a promoção da biodiversidade. “Nós, as mulheres, trabalhamos muito com as cozinheiras e com outras comunidades de mulheres da rede, para valorizar ao máximo o inhame e trocar receitas. Por ocasião do concurso gastronômico das “Koudou du Faso”, em 2017, também ganhamos um prêmio na categoria “produtos não processados” com o nosso inhame de Arbollé!”[3].

O mesmo entusiasmo aparece nas palavras do responsável da Fortaleza, Theodore Ouedraogo, que nos explica como o biênio 2018 – 2019 terá maiores atividades de formação, envolvendo um número ainda maior de pessoas:

“Graças ao apoio do Slow Food, mais de 100 homens e 60 mulheres receberão formação nos próximos meses, para eliminar os resíduos de plástico nas áreas destinadas ao cultivo, fabricar as estruturas para proteger os tubérculos plantados e aprender as diversas possibilidades de uso para aproveitar as muitas qualidades organolépticas.”

Um trabalho fundamental para Burkina Faso, inclusive para Jean Marie Koalga, coordenador do Slow Food Burkina Faso e conselheiro internacional do Slow Food África Ocidental.

“O inhame de Arbollé, como Fortaleza Slow Food, é um modelo de produção e consumo num contexto de evidente mudança climática e é símbolo da resistência da nossa comunidade: adaptando-nos aos crescentes problemas que afetam o ecossistema dessa região, o nosso esforço coletivo diário pela preservação da biodiversidade, significa preservação e valorização de um produto em vias de extinção; eliminação dos produtos químicos de todo cultivo; combate contra a dependência de abastecimentos alimentares externos; crescimento da economia e do tecido social local.”

Nessa região do Sahel, onde a desertificação se torna cada vez mais grave, os efeitos da mudança climática têm um forte impacto nas populações locais.

“A insuficiência de precipitações e a distribuição pouco equilibrada das chuvas ao longo do ano, o empobrecimento do solo, as enchentes e o aumento constante das temperaturas, o consequente escassez dos cultivos, o desmatamento e a falta de pasto para os animais, a migração em massa do meu povo: é isso que significa para mim mudança climática” explica ainda Dianda, uma testemunha de um mundo em dificuldade, que nós precisamos preservar, começando por nossos hábitos e a partir daquilo que colocamos, diariamente, em nosso prato.

 

Os produtores são verdadeiros heróis do clima! Veja como ajudá-los no mês de novembro e apoie o Slow Food para lutar contra a mudança climática com uma doação em favor da campanha Food for Change.

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[1]                                             A Fortaleza Slow Food do inhame, em Burkina Faso, é cultivada nas 7 aldeias que compõem o município de Arbollé

[2]                                             Projeto financiado pelas Fundações para a África – Burkina Faso

[3]                                             Para dar maior visibilidade ao trabalho da comunidade e à biodiversidade do Sahel, as cozinheiras da rede Slow Food em Burkina, utilizam inhame de Arbollé na maioria de seus pratos.

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