Do Brasil: Kiriri farinha de mandioca Slow Food Presidium

22 Jun 2021

O projeto Empowering Indigenous Youth and their Communities to Defend and Promote their Food Heritage, financiado pelo FIDA, começou no ano de 2018 em acordo entre Slow Food, FIDA e a comunidade Kiriri de Banzaê. O projeto surgiu para trazer novas alternativas de renda para os jovens kirirí através da valorização da mandioca do povo Kirirí e da biodiversidade, tendo como objetivo geral melhorar os meios de subsistência local, protegendo e promovendo a herança alimentar e mantendo a sustentabilidade das práticas indígenas dos kiriri de Banzaê.

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©-Paolo-Demetri

Vale ressaltar que esse foi o primeiro projeto voltado para os jovens, onde as decisões e definições das atividades foram definidas por eles, respeitando três componentes do projeto: aumentar o valor económico dos produtos ligados ao patrimônio alimentar; apoiar institucionalmente a rede local e fortalecera rede Terra Madre Indígena; contribuir a gerenciar e difundir os conhecimentos tradicionais e desenvolvidos no projeto. A mandiocultura e seus derivados é o foco do projeto, incluindo as questões socioculturais e ambientais, pois falar de mandioca no semiárido baiano é falar de mudanças climáticas, biodiversidade, segurança alimentar e nutricional, trabalho em rede, geração de renda, inovações, sustentabilidade, empoderamento dos jovens e incidência política. Temas abordados ao longo de todo o projeto.

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Conversamos sobre isso com Revecca Tapie, coordenadora e facilitadora da rede Slow Food Nordeste.

Como era a comunidade há 10 ou 20 anos?

A história dos povos indígenas Kirirí de Banzaê, foi marcada pela luta pela reconquista da terra e retorno ao território de seus ancestres. Após anos de reivindicações, nos anos 90 houve oficialmente a demarcação da terra indígena Kirirí de 12.320ha no município de Banzaê, estado da Bahia. Ao longo dos anos, as famílias foram se organizando e se expandindo no território, formando atualmente 9 aldeias e reunindo aproximadamente 665 famílias. O longo período vivendo em terras improdutivas, resultado da chegada da agropecuária e apropriação dos posseiros no território indígna afetou a cultura alimentar local e os aspectos culturais dos Kirirí, que hoje já não vivem somente do que produz e caça. Porém, os cultivos tradicioanais como milho, mandioca feijão, os rituais espirituais como o toré, os costumes e vestimentos tradicionais e a organização social tendo o cacique como representante foram mantidos até hoje.

Uma anedota engraçada que aconteceu durante uma atividade do projeto?

Durante um reconhecimento das áreas de produção na aldeia Marcação, foi sugerido terminarmos a atividade com um alimento típico local compartilhado com todos. O sussú foi o prato principal, que é feito com a mesma massa que é produzida a farinha. Os visitantes foram convocados a descascar e ralar a mandioca sob os olhares atentos dos Kiriri, apesar de eles achar que estar fazendo correto, foi desaprovado, pois a maneira que nós Kirirí seguram os utensílios é diferente.

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©-Juan-Davis-Cortes-Hernandez

Qual é a mudança ou mudanças mais importantes para a comunidade que este projeto trouxe?

A maior mudança foi o envolvimento dos jovens em todo o processo produtivo e comercial da fábrica de biscoito, conhecendo os aspectos administrativos e financeiro de comercialização, ampliando o empoderamento deles em atividades complementares da agricultura. Outro grande aprendizado foi a mudança da receita do biscoito de fécula, com a introdução de produtos típicos do bioma Caatinga e oriundos da agricultura familiar, mostrando a diversidade na produção, valorizando a identidade indígena. A autonomia de decidir e opinar na execução do projeto também foi um grande aprendizado para os jovens kirirí, gerando um novo olhar sobre o trabalho em rede.

Qual a atividade que teve mais relevância no processo?

As atividades práticas tiveram uma relevância positiva gerando motivação e entendimento sobre os objetivos do projeto para os beneficiários. Essa prática envolveu intercâmbios, participação da rede Indígena Terra Madre, capacitações sobre a filosofia do Slow Food, elaboração do Protocolo de Produção, avaliação e criação de novos rótulos, desenvolvimento de novas receitas, busca de práticas e ferramentas para a gestão fiscal, financeira e administrativa dos empreendimentos conforme realidade local, estudo de ampliação de novos canais de comercialização. O trabalho de valorização das culturas locais, levantamento de produção local e da cultura alimentar indígena nos moldes da Ecogastronomia foi importante para estabelecer contato entre os jovens os mais velhos da aldeia Marcação.

Como você acha que a comunidade seguirá adiante daqui para frente?

O processo da Covid19 deixou os jovens muito incertos de como avançar com as atividades, sendo necessário um diálogo dentro da Fortaleza para entender as mudanças que a pandemia gerou nos planejamentos. Porém o projeto deixa um legado sólido com os matrias gerados para nortear as atividades e promover a Fortaleza SF da mandioca, valorizando a biodiversidade local e contribuindo na capacitação e gestão de conhecimentos dos jovens Kiriri.

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© Valentina Bianco

A Covid-19 impactou as atividades deste projeto e qual foi a resposta?

Sim, por decisões internas a ACIKSAM fechou as vsitas externas no teritório indígena e as atividades presenciais pararam no mês de fevereiro 2020 afetando o plano de trabalho, previsto a realização da oficina de Ecogastronomia, participação Terra Madre Brasil para comercialização dos produtos e intercâmbio com outros povos indígenas do Brasil. Porém as atividades deram continuidade de maneira virtual, havendo replanejamento de modo a responder as demandas como a acquisição de equipamentos, elaboração de rótulos, fechamento do protocolo de produção, elaboração de material promocional, reuniões com as lideranças e acompanhamento da dinâmica local com os jovens.

Como você e a comunidade com quem trabalhou se sente hoje na rede Slow Food? O que você gostaria que fizéssemos juntos no futuro?

Existe um grande potencial e desafio para o fortalecimento da rede indígena no Brasil, podendo ampliar as atividades de incidência política e valorização da cultura alimentar local e da biodiversidade. A participação no Terra Madre Indígena da America Latina foi muito importante para servir de inspiração para o Brasil para expandir e trocar experiências. O que poderia ser desenvolvido no futuro é a articulação com os povos indígenas no Brasil para um futuro Terra Madre indígena. Ampliar as parcerias para a comercializção com a rede Slow Food Brasil é um forte potencial pois muitos jovens se envolveram no projeto e estão interessados e com as vendas pode gerar renda para todos.

Como você imagina a comunidade daqui a 10 anos?

Daqui a 10 anos, queremos colher os frutos de todo o trabalho e esforços que estamos fazendo com esse e os demais projetos que vem ajudando no conhecimento da comunidade e promovendo a cultura do povo Kiriri lá fora. Esperamos também que envolver os pais e as mães desses jovens no processo. Acredito que daqui a 10 anos o trabalho vão se expandir tanto na unidade de bneficiamento de farinha que ne a fábrica de biscoito, gerando renda e autonomia para os jovens e fortalecendo a produção local.

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