A horta das maravilhas … fala a língua local!

11 Ago 2015

garden MU

De vez em quando, aparecem nos jornais artigos que falam de “hortas das maravilhas”, cultivadas com variedades transgênicas, híbridas, comerciais. Da horta do Slow Food da Expo, ao contrário, surge uma história alternativa, que fala de variedades locais, muitas delas embarcadas na Arca do Gosto do Slow Food…

Há alguns dias, os nossos horticultores milaneses nos mandaram uma foto de uma colheita belíssima: são cebolas de casca de um vermelho intenso e de forma achatada, as cebolas vermelhas de Breme, que assim como outras variedades da região lombarda, crescem nas bacias do nosso jardim comestível.

A cebola vermelha de Breme tem origem muito antiga e a sua peculiaridade é o método de cultivo, que não é mecanizado: a capina é feita manualmente ou com motocultivador para limpar o solo de plantas daninhas. As sementes são produzidas diretamente pelos produtores que as selecionam das melhores cebolas colhidas no final de junho. As características desta cebola são o sabor adocicado, consistência crocante e alta digestibilidade. A cebola de Breme correu o risco de desaparecer na década de 80, por ser menos lucrativa do que outras variedades, mas já há sinais de recuperação pequenos, mas significativos: por exemplo, todo segundo e terceiro domingo de junho, realiza-se um festival da cebola vermelha em Breme, com a venda direta do produtor da cebola fresca ou processada: em geleias, mostardas, tortas, sorvetes, molhos, etc.

Uma outra variedade local que surge na nossa horta é o milho “spinato” (pontudo) de Gandino, cultivado na província de Bergamo. O ciclo vegetativo se completa em 120-130 dias, quando a planta atinge dois metros de altura. A espiga é cilíndrica, com 20-25 centímetros de comprimento, sementes dispostas em 14-16 fileiras e espiga avermelhada. O grão é vítreo, de cor amarela alaranjada. A parte externa da espiga apresenta uma ponta cônica voltada para o alto e chamada de “spina” (espinho), daí o nome da variedade, em italiano. O milho “spinato” de Gandino se adapta bem ao cultivo em terrenos de colina ou de montanha baixa, ao método orgânico e, ao contrário dos híbridos, o seu grão pode ser utilizado como semente. A colheita é feita manualmente para poder eliminar espigas e os grãos doentes e com fungos, e pode iniciar no momento da maturação fisiológica, identificada pelo aparecimento da camada negra no ápice do grão.

E também temos feijões: o Gambolò, um feijão “borlotto” cultivado na região entre Vigevano, Mortara, Gambolò e municípios vizinhos, e o feijão Brebbia, em torno do qual foi formada uma comunidade do alimento de pequenos agricultores que, com o convivium de Varese, definiram normas de produção próprias. Não podem faltar os pimentões de Voghera, de cor amarela ou amarelo-alaranjada, polpa fina e pouco aquosa, consistente, resistente ao transporte e adequada à conservação, especialmente no vinagre. O sabor é muito doce, agradável e delicado, com o gosto típico de pimentão pouco pronunciado. No início da década de 50, uma doença comprometeu a sua produção comercial e apenas em 2006 iniciou-se uma fase de seleção das sementes encontradas e a produção de pequenas quantidades do pimentão.

Por fim, a abóbora berrettina e a abóbora bertagnina, um cultivar tradicional de Dorno, na província de Pavia. A cor vai do verde-sálvia ao acinzentado, têm uma casca muito lisa e sem gomos. A parte inferior apresenta duas ou três protuberâncias que fazem com que pareça um chapéu de agricultor, que no dialeto de Dorno se diz bartò, daí bartagnena e, em italiano, bertagnina. Por isso, é chamada abóbora bertagnina.

Mas não é só isso: na nossa horta há de tudo! Berinjelas, abobrinhas, flores de abobrinha, ervas medicinais, flores e ainda tratamentos e cuidados diários, que fazem das variedades locais, cujas melhores sementes são selecionadas todos os anos por agricultores competentes, as verdadeiras protagonistas da nossa horta das maravilhas: isso sim!

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